A Fundação Bienal de São Paulo e a Oficina Francisco Brennand anunciam a abertura da itinerância da 36ª Bienal de São Paulo no Recife, marcando mais uma etapa do programa de mostras itinerantes. Na Oficina Francisco Brennand, a capital pernambucana recebe a exposição "Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática" de 8 de agosto a 18 de outubro. A curadoria da itinerância é dos cocuradores adjuntos da 36ª Bienal, André Pitol e Leonardo Matsuhei. A exposição é assinada pela Petrobras. Realizadas de forma programática desde 2011, as itinerâncias tornaram-se uma extensão fundamental da Bienal de São Paulo, fazendo com que obras e debates apresentados no Pavilhão Ciccillo Matarazzo se reconfigurem em diálogo com contextos locais diversos, ativando novas leituras e relações com públicos fora do eixo expositivo principal.

"Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática"

A 36ª Bienal de São Paulo se abre como um encontro: mundos, histórias e ritmos convergem em polifonia. Um espaço que se ergue por essas múltiplas vozes que, em deslocamento, não buscam ser relatos de migrações ou brados de identidades e suas políticas, mas refletir sobre a noção de humanidade em uma era de desumanização em massa. A exposição, feito um estuário onde águas doces e salgadas se encontram, torna-se um lugar de negociação, de nutrição, de luta e, possivelmente, de reparação. Suas confluências criam terrenos férteis nos quais as práticas de humanidade podem assumir novos significados.

Quais caminhos seguimos para praticar a humanidade? De que maneira nos permitimos sair da rota traçada, abraçar a errância, nos perder e encontrar outros mundos e a nós mesmos de novo?

Ecoando a evocação da poeta afro-brasileira Conceição Evaristo de “mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”, esta exposição emerge como limiar, passagem e morada, ao sugerir de forma metafórica caminhos e contextos que a humanidade, ocupando o papel de viajante, pode seguir ou habitar.

Humanidade é uma prática.
Humanidade é um verbo.
Ela pode ser conjugada.

Etimologicamente relacionado à palavra “húmus”, isto é, solo, o humano evocado aqui em nada coincide com aquele que toma a terra como bem material a ser cercada e tratada como posse, mas para quem ela é sinônimo de pertencimento, sustentáculo de sua própria existência sempre em comunidade. Não importa onde se esteja, portanto não restrito à sua origem ou chegada. Prática coletiva que, de quebra, é resistência aos legados coloniais e à exploração de todas as formas de vida – humanas e mais-que-humanas –, uma vez que orgânico e inorgânico são parte de um todo interligado e, logo, interdependente. De um todo e de todos que requerem cuidado recíproco.

Prática que, mais que ser vista ou lida, precisa de escuta profunda e atenta, ressoando a soberania, a emancipação e a dignidade da persistência. Motivo musical, composição em movimento enquanto aquilo que se desloca em diferentes direções, avesso ao progresso predatório. Afirmação da força da vulnerabilidade, das cosmogonias ancestrais, das visões do futuro e do detalhe atento aos gestos cotidianos.

Nesse sentido, esta Bienal é partitura viva, por meio da qual o caminho entre as obras e de cada obra como caminho em si são repletos da partilha de diferentes maneiras de navegar paisagens, ao trabalhar, descansar, festejar, ritualizar. É convite para que o corpo mova-se aberto à solidariedade, a estar junto, ao reconhecimento da coexistência e da beleza como prática política e poética.