Instalado em um apartamento construído por volta de 1975, simultaneamente à consolidação da Oficina como a conhecemos hoje, o ateliê ocupou um lugar singular dentro da inspiradora cidadela, um espaço de recolhimento para a reflexão e criação. Durante mais de quarenta anos, Brennand passou parte de seus dias trabalhando ao som de música clássica, rodeado pelos livros, imagens e objetos que alimentavam continuamente sua imaginação.
No centro desse universo está a biblioteca privativa de Brennand, com mais de 5.500 volumes entre literatura, filosofia, história e arte, que vão de revistas a livros raros. Este conjunto constitui uma importante fonte de pesquisa para compreender o trabalho do artista cujos interesses vão desde a história da humanidade, passando pelos mitos de origem até a cultura visual contemporânea. Somam-se a esse conjunto cerca de 17 mil itens identificados pela equipe de Acervo e Documentação da Oficina após o falecimento do artista, em 2019. Entre estes itens estão manuscritos, fotografias, correspondências, documentos, mobiliário, objetos de uso cotidiano, materiais de desenho e pintura, estudos, moldes e obras até então inéditas ao público.


Portanto, este não é apenas um espaço funcional, destinado à produção de obras, mas um território intelectual onde memória, imaginação e produção de conhecimento se encontram. Cada elemento do ateliê resguardado — a escrivaninha, as mesas de trabalho, os pincéis, os cadernos, as fotografias, o aparelho de som e sua coleção de música clássica… — testemunha uma forma particular de construir seu pensamento.
Embora Brennand tenha construído um universo profundamente singular na Várzea, sua criação nunca foi autocentrada. O mundo atravessava continuamente seu ateliê. Entrava pelos jornais que ele lia religiosamente, todos os dias, pelas correspondências, pelas conversas com amigos frequentes e também escritores, arquitetos, críticos e jornalistas que o visitavam; pela música e pela literatura clássica e contemporânea. Tudo aquilo que era absorvido retornava transformado em pintura, escultura ou escrita.


Inserida nas comemorações do centenário de Francisco Brennand, em 2027, a abertura permanente do Ateliê amplia o percurso da Oficina ao incorporar uma dimensão até então invisível ao visitante. Se os jardins, os templos e as esculturas revelam a materialização de sua imaginação, o ateliê revela o lugar onde ela se formava.
Ao abrir esta janela, a Oficina Francisco Brennand não apresenta apenas o espaço de trabalho de um artista. Convida o público a compreender que toda obra nasce de um território de pensamento. E que, para Francisco Brennand, esse território sempre esteve voltado para o mundo.


Mais do que observar um ambiente preservado, o público é convidado a experimentar um deslocamento de perspectiva. Em vez da obra acabada, encontra seus antecedentes; em vez da monumentalidade das esculturas, aproxima-se da escala humana da criação; em vez do resultado, acompanha os caminhos do pensamento.


Camila Bechelany, diretora Artística e de Programação