CONEXÃO DE TERRITÓRIOS

Se para pensar as sociedades pós-coloniais das Américas, o Caribe é um território incontornável, (re)conhecer a existência e a pujança de um arquipélago como Guadalupe é um caminho necessário — principalmente para nós, “seres-irmãos” deste lado do Atlântico. O projeto Entre mares eu dancei nasce dessa premissa e do objetivo de unir dois lugares que, mesmo distantes, estão profundamente conectados por suas histórias, invenções e modos de existir: Guadalupe, região ultramarina francesa nas pequenas Antilhas, e Pernambuco, no Nordeste do Brasil.

Educadora, pesquisadora, antropóloga e artista da dança, Lēnablou vem de Guadalupe para ser o motor desse encontro marcado por duas etapas que abrem, por meio da Temporada França-Brasil 2025, uma rota artística e cultural inédita. Essa abertura foi concebida pela Oficina Francisco Brennand em parceria com o Artchipel Scène Nationale de la Guadeloupe e a Cie Trilogie Lēnablou. Juntas, as instituições idealizaram e tornaram possível uma residência de pesquisa e intercâmbio com Léna no Recife e a vinda da sua companhia para a apresentação do espetáculo “Le sacre du sucre”. Nesse percurso, brotaram falas, escutas, oficinas, performance, masterclass e uma conversa entre corpos que se reconhecem mesmo sem nunca terem se visto antes… O gwo-ka, o frevo, o cavalo-marinho, o coco…

Trazendo a vivência de uma trajetória de 35 anos, Lēnablou tem a habilidade e o carisma de colocar a dança, a música e a arte na centralidade da vida. Por conta disso, passou a ser reconhecida internacionalmente ao conceituar o Bigidi e desenvolver a Techni’ka. O primeiro termo refere-se a uma expressão polissêmica do crioulo francês que ela habilita no território dançado, relacionando-a ao movimento de desequilíbrio, improviso, esquiva e adaptação presente nas danças caribenhas, particularmente no gwo-ka, manifestação original dos solos canavieiros de Guadalupe. Já a Techni’ka sintetiza tudo isso em uma linguagem autoral de dança que Lēnablou, além de assinar, utiliza como método de ensino, criação e pesquisa.

O desequilíbrio que motiva a sua investigação é uma metáfora de resistência e vanguardismo. O corpo dançante que oscila, tropeça, mas não cai, inscreve seus movimentos por meio da memória de uma constante adaptação, inerente às experiências afro-diaspóricas de insurgência frente à colonialidade e seu repertório de violência, privação e anulação. Mesmo reconhecendo o trauma, Lēnablou prefere olhar para a inventividade futurista de seus ancestrais que, ao criar um código de inversão à lógica ocidental moderna, garantiu a permanência de um povo no mundo com muita inteligência, sabedoria e dignidade.

Que este projeto seja só o começo.

OLÍVIA MINDÊLO E JAMILLE BARROS
Coordenadoras gerais do projeto